Dominando a curva de aprendizado dos prontuários eletrônicos: IA, telemedicina e gestão de clínicas em 2026

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Dominando a curva de aprendizado dos prontuários eletrônicos: IA, telemedicina e gestão de clínicas em 2026

Por que este tema importa para a gestão na área da saúde?

  • Impacto direto na receita e na segurança do paciente: dominar o prontuário eletrônico (EHR/PEP) reduz erros, aumenta produtividade e evita perda de faturamento em clínicas e consultórios.
  • Base para IA e telemedicina: sem dados bem registrados e fluxos digitais estáveis, nenhuma solução de inteligência artificial, teleconsulta ou automação funciona de forma confiável.
  • Vantagem competitiva na saúde privada: clínicas que tratam a curva de aprendizado do EHR como estratégia de gestão – e não como mero software – atraem profissionais, parceiros e pacientes mais exigentes.

Prontuário eletrônico não é só software: é infraestrutura de trabalho

O artigo original de Chris Mercier, focado em estratégias para dominar a curva de aprendizado dos EHR até 2026, parte de uma constatação que vale tanto para os Estados Unidos quanto para o Brasil: o prontuário eletrônico deixou de ser um acessório tecnológico e se tornou infraestrutura crítica de trabalho. Em clínicas e consultórios brasileiros, o EHR (ou PEP – Prontuário Eletrônico do Paciente) organiza desde o agendamento até o faturamento, passando por prescrições eletrônicas, laudos, integração com operadoras de saúde suplementar e, cada vez mais, com telemedicina e ferramentas de inteligência artificial.

Quando essa infraestrutura é mal implementada, a consequência aparece na ponta: médicos digitando mais do que olhando para o paciente, atrasos em consultas, glosas de convênios, erros de lançamento, dificuldade de acesso a informações em auditorias ou em processos judiciais. Não é um problema “de TI”: é um problema de gestão clínica, de segurança do paciente e de sustentabilidade financeira. O raciocínio de Mercier, ao falar de “IT competency”, deve ser traduzido no Brasil como competência organizacional em saúde digital: alinhar pessoas, processos e tecnologia, em vez de simplesmente instalar um sistema e esperar que ele “se resolva sozinho”.

Da curva de aprendizado ao ganho de produtividade: lições para o Brasil

A experiência internacional mostra um padrão: na adoção de EHR, há um período inicial de queda de produtividade, seguido de recuperação e, nos casos bem-sucedidos, de ganho real de eficiência. Em clínicas brasileiras que digitalizaram seus processos de forma estruturada, é comum observar, após 6 a 12 meses, aumento de 10% a 20% no número de atendimentos por hora sem reduzir o tempo efetivo de consulta; o ganho vem da eliminação de retrabalho administrativo, automação de documentos recorrentes e melhoria na comunicação interna.

Para chegar a esse patamar, porém, a gestão precisa tratar a curva de aprendizado como um projeto de transformação, não como um “custo inevitável”. Isso envolve mapear fluxos de trabalho (marcação de consulta, recepção, confirmação, atendimento, evolução, faturamento), definir padrões mínimos de registro, treinar a equipe de forma prática e contínua, e usar métricas objetivas: tempo médio de abertura de prontuário, percentual de campos obrigatórios preenchidos, taxa de glosa por erro de cadastro, número de atendimentos perdidos por falhas de agendamento.

No contexto brasileiro, em que boa parte das clínicas opera no limite de margem, essa disciplina é decisiva. Um consultório que atende 800 pacientes por mês e reduz em apenas 5% a taxa de falta (no-show) usando lembretes automatizados do próprio sistema, já compensa boa parte do investimento. A mesma lógica vale para integração com faturamento TISS, uso de assinatura digital em laudos, checagem automática de elegibilidade de planos e prescrição eletrônica integrada com farmácias: a tecnologia não se paga sozinha, mas se torna investimento quando é inserida em metas de produtividade e qualidade assistencial.

IA e telemedicina: o EHR como motor de dados, não como obstáculo

Mercier aponta que, sem competência em EHR, falar em inteligência artificial em saúde é praticamente ficção. No Brasil, muitas clínicas querem “usar IA” para triagem de pacientes, apoio à decisão clínica ou automação de relatórios, mas mantêm dados fragmentados, registros inconsistentes e práticas manuais que inviabilizam qualquer análise confiável. Modelos preditivos de risco, por exemplo, exigem históricos estruturados de sinais vitais, diagnósticos, exames e desfechos. Se a maior parte dessas informações está em PDFs soltos, em campos de texto livre ou até em papel digitalizado, o máximo que se obtém é um painel bonito, mas pouco útil.

O movimento global de “augmented intelligence” – IA como apoio, e não substituição, ao profissional – depende de EHRs desenhados para serem colaborativos, não opressivos. Na prática, isso significa adotar ferramentas de reconhecimento de voz médico, modelos de linguagem (LLMs) para rascunho de evoluções e sumários de alta, assistentes que sugerem codificações compatíveis (CID, TUSS) e alertas clínicos bem calibrados para não se tornarem ruído. No Brasil, já vemos soluções que resumem automaticamente um histórico de múltiplas consultas para apoiar uma segunda opinião ou teleconsulta, desde que o prontuário esteja minimamente estruturado.

A telemedicina adiciona outra camada. Com a regulamentação consolidada pelo CFM, cresce o número de clínicas híbridas, que alternam consultas presenciais e à distância. Nessas realidades, o EHR precisa integrar agendamento, consentimento informado digital, armazenamento de gravações (quando aplicável), prescrição eletrônica e integração com exames realizados em outros serviços. Não é mero detalhe operacional: a experiência do paciente – e a confiança do médico na informação recebida – depende dessa continuidade. Se a clínica trata o sistema como inimigo, a telemedicina vira um remendo. Se trata como núcleo da operação, abre espaço para linhas de cuidado remotas, monitoramento de pacientes crônicos e programas de bem-estar corporativo mais sofisticados.

Competência digital como requisito ético e de mercado

Há também uma dimensão ética pouco discutida. Em um cenário em que dados de saúde se tornaram ativos valiosos, a incapacidade de uma clínica em gerenciar bem seu EHR não é apenas um “descuido tecnológico”; é potencial violação de privacidade, de continuidade de cuidado e de equidade. Falhas de segurança, acessos indevidos, perda de histórico ou incapacidade de migrar dados entre sistemas impactam diretamente a autonomia e a segurança do paciente.

Mercier fala em “IT competency” como diferencial de equipes de saúde. Na realidade brasileira, isso se traduz em algo mais amplo: competência digital em saúde como requisito profissional. Médicos, gestores, enfermeiros, recepcionistas e administradores precisam entender minimamente como fluxos digitais funcionam, quais são os riscos, como interpretar dashboards, como dialogar com fornecedores de sistemas. Não se trata de transformá-los em programadores, mas em atores conscientes em um ecossistema cada vez mais regulado por dados, interoperabilidade (como a Rede Nacional de Dados em Saúde, RNDS) e normas como a LGPD.

Para clínicas e consultórios, a mensagem é direta: quem dominar a curva de aprendizado do prontuário eletrônico, integrando IA, telemedicina e segurança da informação, não apenas sobreviverá à próxima década – será referência. Quem resistir, tratando tecnologia como custo e não como infraestrutura estratégica, corre o risco de ver pacientes, profissionais e parceiros migrarem para organizações mais preparadas para a saúde digital.

Principais Perguntas Respondidas

  • 1. Por que dominar o prontuário eletrônico é estratégico para clínicas e consultórios?
    Porque o EHR/PEP é hoje o centro operacional da clínica: dele dependem a segurança do paciente, o faturamento, a produtividade da equipe, a experiência do paciente e a possibilidade de usar IA e telemedicina de forma estruturada.
  • 2. Como a curva de aprendizado do EHR afeta a produtividade?
    Nos primeiros meses é comum haver queda de produtividade, mas clínicas que tratam a adoção do sistema como projeto de gestão, com treinamento e métricas claras, tendem a recuperar e superar o nível anterior, reduzindo retrabalho administrativo e erros de faturamento.
  • 3. Qual a relação entre EHR, IA e telemedicina na prática?
    O EHR bem estruturado gera dados confiáveis para modelos de IA (como apoio à decisão, sumários automáticos e codificação) e garante continuidade de informação entre consultas presenciais e online, tornando a telemedicina segura e integrada ao cuidado.
  • 4. O que diferencia uma clínica digitalmente competente no mercado brasileiro?
    São aquelas que integram prontuário eletrônico, automação administrativa, segurança de dados, uso responsável de IA e telemedicina, com processos claros, equipe treinada e indicadores de desempenho acompanhados de forma contínua.
  • 5. Que riscos existem em tratar o EHR apenas como exigência burocrática?
    Os principais riscos são aumento de erros, perda de faturamento, vulnerabilidades de segurança e incapacidade de participar de redes de cuidado baseadas em dados, o que pode comprometer reputação, competitividade e qualidade assistencial.

Artigo Original: Mastering the EHR Learning Curve: 2026 Strategies for IT Competency